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Experience O contexto Cultural E A Experiência Psicadélica 

Um Apelo à expansão da diversidade linguística na investigação com substâncias psicadélicas

Traduzido por Joao Cardoso, editado por Joana Miranda

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Sandeep Nayak, M.D.

Postdoctoral Fellow

Sandeep Nayak, MD, is a psychiatrist and postdoctoral fellow at the Johns Hopkins Center for Psychedelic and Consciousness Research.

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Editado por Lucca Jaeckel & Clara Schüler

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  • Agosto 12, 2020
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SET E SETTING ABRANGEM NÃO SÓ A PERSONALIDADE DO PARTICIPANTE, ESTADO EMOCIONAL E AMBIENTE FÍSICO, MAS TAMBÉM A MOLDURA CULTURAL E O “PONTO DE VISTA DOMINANTE ACERCA DO QUE É REAL”.

A investigação psicadélica enfrenta um problema de diversidade que tem merecido uma discussão alargada:1,2 A investigação tem lugar em grande medida nas chamadas nações WEIRD – Western, Educated, Industrialized, Rich and Democratic.3 Este acrónimo tem sido utilizado para salientar a sobre representação na investigação psicológica de uma fração da humanidade que em muitos aspetos é um outlier. Os indivíduos WEIRD têm diferentes noções de raciocínio moral, cognição espacial, individualismo, e mesmo perceção visual e olfactiva.3,4 Além disso, a base populacional em estudos com substâncias psicadélicas tende a ser branca (82% à data de 2018) e abastada.5 Isto é preocupante por uma série de razões. Uma delas é simplesmente a falta de acessibilidade. Muitos dos que poderiam beneficiar da participação em ensaios com substâncias psicadélicas não são tidos em conta. Isto influencia a capacidade de universalização da investigação. Se as substâncias psicadélicas se tornarem clinicamente viáveis, poder-se-á deparar com riscos não antecipados com esta falta de diversidade.

Além disso, há evidência na literatura científica de psicoterapia de que diferentes terapeutas apresentam diferentes graus de eficácia em função dos grupos raciais e étnicos.6-8 Até à data, não é claro até que ponto isto pode ser verdade na terapia com substâncias psicadélicas. Em estudos de teor psicadélico, os facilitadores não são um grupo muito diversificado, e isto pode ter ou não consequências no que diz respeito à eficácia terapêutica. Reconhecendo este facto, a organização MAPS (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicadélicos, nos E.U.A.) iniciou, para os seus estudos com MDMA, uma formação específica para terapeutas de origem e ascendência negra.

É também possível que diferentes grupos raciais, étnicos e linguísticos tenham diferentes tipos de experiências psicadélicas. O impacto do set & setting é hoje em dia já uma banalidade nas discussões sobre a experiência psicadélica, embora seja útil destrinçar as implicações desta verdade. Set & setting  abrangem não só a personalidade do participante, o estado emocional e o ambiente físico, mas também a moldura cultural e o “ponto de vista dominante acerca do que é real.9

Por exemplo, as primeiras experiências com peiote assinalaram variações significativas nos efeitos entre brancos e indígenas norte-americanos. “As reações descritas nas experiências clínicas com brancos são tão diferentes das descritas pelos indígenas peiotistas […] que se inserem em categorias completamente diferentes. Eles não parecem estar a falar da mesma coisa.10” Nessa época, os participantes brancos que tomaram peiote num contexto de investigação tiveram experiências caracterizadas por desconfiança, dificuldade na atribuição de significado, angústia, “alucinações em grande parte de conteúdo idiossincrático” e, de uma forma geral, ausência de benefícios terapêuticos. Em contraste, os peiotistas indígenas norte-americanos geralmente recebiam o cato num contexto cerimonial, com o pressuposto de uma experiência significativa e benéfica, e apresentaram benefícios terapêuticos e “sentimentos acolhedores de contacto com uma nova e mais significativa […] realidade preconizada em sabedoria doutrinária.11” O significado culturalmente padronizado de uma experiência psicadélica pode ser importante no teor e efeitos das substâncias psicadélicas.

Assim, as questões cruciais na investigação de substâncias psicadélicas são: qual é a substância, qual é o contexto, e como é que estes dois interagem? Estas questões estão enraizadas numa forte sociologia da ciência que molda os nossos pontos de vista. Erich Studerus, um investigador de substâncias psicadélicas suíço, ao ser entrevistado no livro Neuropsychedelia de Nicolas Langlitz, critica a conceção comum de que os efeitos psicadélicos são quase inteiramente atribuíveis ao set e setting.12 Salienta que esta ideia retoma o preconceito dualista da mente sobre a matéria, que é particularmente popular entre os entusiastas das substâncias psicadélicas e que exalta a psicologia em detrimento da farmacologia.12 A ideia de que o set e setting determinam inteiramente os efeitos psicadélicos pode ser extrema, mas há também o extremo oposto. Nomeadamente, a suposição, assentada na planificação de ensaios clínicos modernos, de que para o resultado terapêutico o efeito da substância ativa é o principal e que pode ser afastado com sucesso de fatores ambientais por intermédio de uma comparação placebo. O meio termo pressupõe a navegação por uma mistura complexa de efeitos que não podem ser nitidamente desagregados em proporções perfeitas de substância e contexto. A resposta à substância terá de ser avaliada em vários contextos e com diferentes métodos.

Compreender a natureza da relação entre a susbtância e o contexto é a questão essencial, e avaliar os efeitos dos diversos contextos culturais é uma forma de chegar até ela. No entanto, as questões de conceptualização dos ensaios clínicos e as limitações de longa data ao aumento da diversidade entre os participantes significa que tal ainda pode demorar. Referi que a maior parte da investigação psicadélica tem lugar em países WEIRD e para além disto – pelo menos nos E.U.A. – a população branca é muito mais propensa a usar substâncias psicadélicas do que qualquer outro grupo etnorracioal.13 No entanto, temos formas mais fáceis de colher frutos. Os inquéritos online que podem chegar a qualquer pessoa são universais na investigação com substâncias psicadélicas. O nosso grupo tem feito inquéritos acerca de experiências de união com Deus e outras entidades, experiências místicas, insights e muitas mais. O Centro de Investigação de Substâncias Psicadélicas –  Imperial College’s Centre for Psychedelic Research está também envolvido em vários inquéritos online, incluindo inquéritos prospetivos  sobre o uso de substâncias psicadélicas em contexto de cerimónias e em microdosagens. Não há nenhuma razão plausível para que estes não possam ser feitos em múltiplas línguas. Por exemplo, o inquérito Afterglow por intermédio da Charité Universitätsmedizin Berlin esteve disponível em alemão e inglês.

Tais inquéritos poderiam em grande medida servir de orientação para a relação entre o contexto cultural e a experiência psicadélica. Existem, contudo, algumas limitações. Uma tradução adequada dos inquéritos exigiria uma maior colaboração entre pessoas e instituições com conhecimentos nas línguas em causa. Até à data, muitos dos questionários acerca de substâncias psicadélicas mais frequentemente utilizados não estão ainda devidamente validados noutras línguas. Isto constitui uma limitação não só à investigação por intermédio de inquéritos, mas também na investigação clínica futura. Para este fim, o nosso grupo, em colaboração com investigadores da Universidade Estatal de Ohio, da Universidade do Wisconsin, e do Imperial College, tem estado empenhado num inquérito sobre experiências psicadélicas para pessoas cuja língua materna é o espanhol, com o objetivo de validar muitos dos inquéritos mais comummente utilizados na investigação das substâncias psicadélicas.

Para além da obtenção de conhecimento científico, há outro benefício real neste tipo de trabalho. A revolução no apoio público à investigação de substâncias psicadélicas no círculo anglo-saxónico tem sido espantosa. Isto não teria sido possível sem os esforços dos investigadores e sem a discussão que esta investigação tem gerado na sociedade. Assim, a investigação de substâncias psicadélicas faz parte de um diálogo entre a sociedade em geral. Em muitos aspetos, a postura negativa em relação às substâncias psicadélicas continua a ser o maior obstáculo ao progresso na sua pesquisa. As restrições ao financiamento e outras limitações normativas refletem esta postura, porém também são alteradas por ela.

Mais especificamente, a investigação de substâncias psicadélicas é uma espécie de diálogo com a comunidade dos seus utilizadores. Ao contrário da investigação clínica para a maioria das drogas, a das substâncias psicadélicas dispõe de uma comunidade de utilizadores com opiniões fortes, com os quais a ciência pode aprender bastante. A disponibilidade dos utilizadores de substâncias psicadélicas para participar na investigação é uma enorme vantagem para o progresso neste campo, se bem que não deva ser considerada como um dado adquirido. Embora esta boa vontade possa estar estabelecida nos EUA e na Europa Ocidental, poderá não ser este o caso por todo o lado. Compreensivelmente, o recrutamento para o nosso inquérito espanhol deparou-se por vezes com desconfiança e ceticismo. Promover uma investigação exige a justificação do valor e das intenções por detrás da pesquisa. A confiança terá de ser conquistada, e considero o projeto de expansão das pesquisas com substâncias psicadélicas a outras línguas um passo em frente na tentativa de a obter.

A minha esperança é a de que mais inquéritos online sejam traduzidos e publicados simultaneamente em várias línguas. Isto implicaria uma maior colaboração internacional por todo o mundo da investigação de substâncias psicadélicas, algo que eu saudaria. No entretanto, qualquer um pode contribuir para promover esta investigação, preenchendo e divulgando o nosso inquérito das substâncias psicadélicas em espanhol.

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Referências Bibliográficas
  1. Yin S. How researchers and advocates of color are forging their own paths in psychedelic-assisted therapy [Internet]. WHYY. 2020 [cited 18 July 2020]. Available from: https://whyy.org/segments/researchers-advocates-of-color-are-forging-their-own-paths-in-psychedelic-assisted-therapy/
  2. Watson E. Okayplayer: Black Americans Are Building A Space In Psychedelic Drug Culture After Being Ignored For Decades – MAPS [Internet]. MAPS. 2020 [cited 18 July 2020]. Available from: https://maps.org/news/media/7541-okayplayer-black-americans-are-building-a-space-in-psychedelic-drug-culture-after-being-ignored-for-decades
  3. Henrich J, Heine S, Norenzayan A. The weirdest people in the world?. Behavioral and Brain Sciences. 2010;33(2-3):61-83.
  4. Sorokowska A, Sorokowski P, Hummel T, Huanca T. Olfaction and Environment: Tsimane’ of Bolivian Rainforest Have Lower Threshold of Odor Detection Than Industrialized German People. PLoS ONE. 2013;8(7):e69203.
  5. Michaels T, Purdon J, Collins A, Williams M. Inclusion of people of color in psychedelic-assisted psychotherapy: a review of the literature. BMC Psychiatry. 2018;18(1).1.
  6. Imel Z, Baldwin S, Atkins D, Owen J, Baardseth T, Wampold B. Racial/ethnic disparities in therapist effectiveness: A conceptualization and initial study of cultural competence. Journal of Counseling Psychology. 2011;58(3):290-298.
  7. Larrison C, Schoppelrey S, Hack-Ritzo S, Korr W. Clinician Factors Related to Outcome Differences Between Black and White Patients at CMHCs. Psychiatric Services. 2011;62(5):525-531.
  8. Hayes J, Owen J, Bieschke K. Therapist differences in symptom change with racial/ethnic minority clients. Psychotherapy. 2015;52(3):308-314.
  9. Leary T, Metzner R, Ram Dass. The psychedelic experience. New Hyde Park, N.Y.: University Books; 1971.
  10. Slotkin J. The peyote religion. Glencoe, Ill.: Free Press; 1956.
  11. Wallace A. Cultural Determinants of Response to Hallucinatory Experience. Archives of General Psychiatry. 1959;1(1):58.
  12. Langlitz N. Neuropsychedelia. Berkeley: University of California Press; 2013.
  13. U.S. Department of Health and Human Services, Substance Abuse and Mental Health Services Administration, Center for Behavioral Health Statistics and Quality. (2018). National Survey on Drug Use and Health 2018 (NSDUH-2018-DS0001). Retrieved from https://datafiles.samhsa.gov/