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O seu Telemóvel conheceo melhor do que o seu tarapeuta?

A promessa e o perigo da fenotipagem digital

Traduzido por João Cardoso, editado por Joana Miranda

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Prof. Dr. med. Gerhard Gründer

Professor of Psychiatry

Prof. Dr. med. Gerhard Gründer is head of the Molecular Neuroimaging Department at the Central Institute of Mental Health, Mannheim.

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  • Outubro 30, 2020
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Em 2017, Tom Insel, o antigo diretor do National Institute of Mental Health (NIMH) publicou um pequeno artigo de “opinião” com o título  “Digital Phenotyping – Technology for a New Science of Behavior” [“Fenotipagem Digital – A Tecnologia para uma Nova Ciência do Comportamento”] no prestigiado Journal of the American Medical Association (JAMA).1 No início de 2017, Insel deixou o seu antigo posto de trabalho na Alphabet (anteriormente Google) pela Mindstrong Health, uma empresa sediada na Califórnia, a qual, de acordo com o seu website, se dedica a “Transformar a Saúde Mental: melhores resultados através de assistência feita à sua medida”.

O que é exatamente “fenotipagem digital”? A resposta a isto é dada de novo pelo site da Mindstrong:

“A fenotipagem digital é o cerne da nossa abordagem feita à medida. A fenotipagem digital é simplesmente uma avaliação com base no uso de smartphones. Como os smartphones se tornaram omnipresentes, o seu uso crescente proporciona uma oportunidade sem precedentes para avaliar o humor, a cognição e o comportamento – passiva, objetiva e continuamente”.

Segundo Insel, “embora a tecnologia dos smartphones prometa transformar muitos aspectos dos cuidados de saúde, nenhuma área da medicina é suscetível de ser mais alterada por esta tecnologia do que a psiquiatria. A fenotipagem digital é o termo agora utilizado para descrever esta nova abordagem à avaliação do comportamento a partir dos sensores de smartphone, da interação com o teclado, e das várias características de voz e discurso”.

Sachin Jain e os seus colegas dão um exemplo típico da aplicabilidade no seu influente artigo “The digital phenotype” [“O fenótipo digital”], publicado em 2015: “Para um indivíduo com perturbação afetiva bipolar cuja fase maníaca se manifesta através de taquifemia, pressão de discurso ou hipergrafia, abre-se uma oportunidade de melhor caracterização clínica através da frequência, duração e conteúdo da sua participação nas redes sociais. Através destas diversas aplicações, os fenótipos digitais podem ajudar a assegurar que as manifestações precoces de agudização da patologia de base não passem despercebidas e permitem ao sistema de saúde desenvolver intervenções mais ágeis, específicas e rápidas”.2

Insel afirma ainda que “nas últimas quatro décadas, a observação e avaliação dos comportamentos, outrora o foco da psiquiatria, diminuiu de importância à medida que a investigação psiquiátrica se voltou para a farmacologia, genómica e neurociência, e grande parte da prática psiquiátrica se tornou numa série de breves interações clínicas centradas na gestão da medicação. Em cenários de pesquisa, a atribuição de um diagnóstico pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) [Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais] tornou-se um substituto para a observação comportamental. Na prática, poucos clínicos avaliam a emoção, a capacidade cognitiva, ou o comportamento com qualquer instrumento validado”.

Será que acreditamos realmente em tudo isto? Poderão as complexidades do comportamento humano, e mais ainda as perturbações mentais, ser representadas por pistas que deixamos nos nossos smartphones? Quando ainda não temos um conceito consistente de “psicose”, como podemos acreditar que “a coerência semântica das amostras de discurso é um preditor de psicose”?1 Quando não temos forma de explicar a enorme heterogeneidade das perturbações do humor, como podemos acreditar que “alterações captadas por diversos sensores se correlacionam com variações do humor”? 1

Olhando em retrospectiva para o seu período no NIMH, Insel admitiu que nos 13 anos como diretor não acredita que se “tenham mobilizado minimamente para diminuir as taxas de suicídio, reduzir as hospitalizações, melhorar a reabilitação para as dezenas de milhões de pessoas que padecem de perturbações mentais. Considero-me responsável por isso.”3 Agora, sob a forma da fenotipagem digital, ele apresenta um conceito ainda mais reducionista sobre psicopatologia do que aquele que é expresso no Research Domain Criteria (RDoC) [Critérios do Domínio da Investigação (RDoC)] do NIMH, uma estrutura dimensional de apoio à investigação integrativa da perturbação mental, através de diferentes níveis de informação e organização.

Insel conclui: “Após 40 anos da psiquiatria a tender para uma abordagem muito menos centrada na mente do que no cérebro, talvez a fenotipagem digital ajude o pêndulo a oscilar para um novo olhar sobre o comportamento, a cognição e o humor. Tem-se dito que novas rotas na ciência são ditadas por novas ferramentas muito mais frequentemente do que por novos conceitos. Neste caso, uma ferramenta que é barata e omnipresente pode mudar o rumo neste campo”.1

A minha convicção pessoal é a de que a “fenotipagem digital” poderá ser uma ferramenta interessante para melhor compreender certos aspetos do comportamento humano, mas está longe de ser capaz de “mudar o rumo neste campo”. Com tal rumo não só cairíamos numa abordagem menos centrada na mente, mas também menos humana.

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Referências
  1. Insel TR. Digital Phenotyping: Technology for a New Science of Behavior. JAMA. 2017;318(13):1215-6. doi:10.1001/jama.2017.11295
  2. Jain SH, Powers BW, Hawkins JB, Brownstein JS. The digital phenotype. National Biotechnology 2015;33(5):462-463. doi:10.1038/nbt.3223
  3. Rogers A. Star Neuroscientist Tom Insel Leaves the Google-Spawned Verily for … a Startup? WIRED [Internet]. 2017 Nov 5; Available from: https://www.wired.com/2017/05/star-neuroscientist-tom-insel-leaves-google-spawned-verily-startup/